Pular para o conteúdo principal

Não lembrava mais que você existia. Não que você estivesse ausente, porém o esquecimento havia tomado conta de mim. Te esqueci pois me furtaram. Embora, você sempre danada, deixava rastos. Não recordava dos teus sonhos, da tua curiosidade com o mundo. Aliás, quando você aparecia de vez em quando, acreditava que você tinha abandonado seus desejos penetrantes e oceânicos. Não conseguia compreender. Tristonha eu ficava. A apatia, da brancura mais pálida, invadia minha vida. Sem você não havia eu. Vagava por noites sem saber onde haviam te escondido. Te procurava, no choro manso, no mesmo choro de quando eu era criança. Me devolvam daquilo que sou feita. Até que um dia, aqueles sinais seus de vida foram a chave para nossa volta. Num cativeiro sujo e assombroso, localizado num atraente bosque, a encontrei, sugada e abatida. O que fizeram com você? O que fizeram conosco? O roubo era muito mais carrancudo do que imaginava. Nosso olhar cúmplice, esperançava mesmo ali, nosso reencontro. Decidida, a tirei desse lugar, tão deslumbrante por fora e assustador por dentro. Atravessamos o bosque, cruzamos o rio. Era noite de lua cheia.

Encontrávamos o caminho de volta.
Agora envoltas num processo de cicatrização, descobrimos o esquecido, o enterrado. O processo é gradual, porém a alegria do nosso pertencimento é o remédio salutar para o coração de cada uma de nós.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Uns quantos piquetitos: Frida e sua denúncia da violência contra a mulher

Entre tantos quadros cercados de profundidades e denúncias da realidade de Frida Kahlo, Uns quantos piquetitos(1935) chama a atenção ao retratar uma situação freqüente enfrentada pelas mulheres naquela época e também nos dias de hoje, a violência doméstica. A pintura revela a brutalidade da violência física praticada contra a mulher. A obra é inspirada em uma notícia de um jornal mexicano de 1935, em que um homem bêbado jogou a namorada numa cama e a apunhalou cerca de vinte vezes. Quando questionado pela polícia sobre o crime, o assassinato respondeu que apenas foram umas “facadinhas de nada”. Sensibilizada pelo ocorrido, Frida desenha a cena do crime: o assassino com um punhal ensanguentado na mão e ao seu lado, o corpo nu da mulher marcado pelas facadas; o rastro de sangue está presente na roupa do homem, na vítima, na cama, no chão e alastra até mesmo a moldura da tela. A pintura, manchada de sangue, transborda da tela para a vida de Frida Kahlo. Na mesma época, a pintora mexic…

Olga Benário: "Lutei pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo"

HISTÓRIA: A MODA DA EUROPA NO SÉCULO XVII - Parte I

Disponibilizo nas próximas postagens um trabalho da matéria de Idade Moderna I sobre a moda da Europa no século XVII, escrito por mim e pela Pâmela Grassi.
A MODA DA EUROPA NO SÉCULO XVII - Parte I
Cada vez mais se desperta entre os estudiosos, a pesquisa e o conhecimento à cerca da moda. Numa época onde os trajes têm importância cultural e econômica e são um fator para a compreensão da sociedade contemporânea, nada mais pertinente que o estudo da História da Moda.
A moda como um fenômeno social insere-se historicamente em contexto e quando analisada revela vários aspectos da organização humana, como os hábitos e a forma de agir ou pensar. Como diz Anne Hollander:Todo o mundo sabe que as roupas constituem um fenômeno social; mudanças no vestuário são mudanças sociais. E mais,diz-se que transformações políticas e sociais refletem-se no vestuário (...)[1]Daremos especial atenção ao mundo das roupas do século XVII na França e na Inglaterra, centros a partir dos quais durante um lo…